Aguardar o ônibus no ponto, o horário de saída do trabalho,
a visita que atrasou, o horário de sair, pela notícia ou resultado de algo,
pelo encontro com alguém especial, pela decepção eminente, por alguém que
ficará on line, o segredo a ser contado, pelo horário do programa preferido, a
consulta com o médico ou dentista, pela viagem desgastante, pelo sono que nunca
chega, pelo favor que demora em ser atendido: tudo isso era extremamente
prejudicial a minha saúde e eu não tinha consciência disso. A prontidão, que se faz ao esperar algo, proporcionou inúmeros sintomas e eu
acabei por ignorar tudo isso. Deixei de usar o relógio de pulso. Os ponteiros, ao se movimentarem, provocavam
em mim uma inquietação incrível e uma sensação de que eu contava a cada mudança
do ponteiro dos segundos. Era uma demora de séculos a mudança do ponteiro. Com
isso, o meu ar passava a se exaurir de modo pertinaz, os meus batimentos
poderiam ser confundidos com os repiques das escolas de samba e os meus ombros
ardiam como em contato com a brasa.
Um vulcão que desperta depois de anos, ameaça jorrar as suas larvas e destruir
tudo: sonhos, projetos, rotinas e saúde. Dessa forma, posso definir a situação de quem deixa a ansiedade sair do controle
e deixa qualquer expectativa transformar tudo em um grande tormento. A
insegurança passa a ser um grande câncer que corrói os momentos de espera sem
piedade.
Prometo olhar menos para os ponteiros ou para o sol que a cada momento do dia
se encontra em posição diferente do meu céu.
Heracton Sandes

2 comentários:
Adoro seus textos, você tem o dom de expressar, com uma facilidade incrível, seus sentimentos, dúvidas, coisas. Fico feliz pelo fato de você ter freado um pouco, ter parado de ser escravo dos ponteiros e seguir um ritmo mais tranquilo, mais suave e que se adapta ao seu modo!
Continue assim!
Super abraço,
Alan Matteo
É sempre ótimo ler seu textos primo. Admiro muito teu trabalho e espero logo logo poder ler um livro seu.
Um Abraço.
Leonam Sandes
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